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Stewardship: muito antes dos programas de antimicrobianos

Quando falamos em Stewardship, a maioria dos profissionais de saúde pensa imediatamente nos Programas de Stewardship de Antimicrobianos.


Essa associação é compreensível, mas incompleta.


Stewardship não nasceu na saúde.


Muito menos surgiu como o nome de um programa.


Na verdade, Stewardship é um conceito de governança cuja origem remonta a séculos atrás.


A palavra steward vem do inglês antigo stigweard e era utilizada para designar a pessoa responsável por administrar uma propriedade em nome de seu proprietário. O steward não era dono dos recursos que administrava. Sua responsabilidade era protegê-los, utilizá-los com prudência e entregá-los em melhores condições às gerações seguintes.

Desde sua origem, portanto, Stewardship nunca significou propriedade.


Significou responsabilidade.


Ao longo do tempo, esse conceito foi incorporado por diferentes áreas.


Na administração pública, passou a representar a boa gestão dos recursos públicos.


Na área ambiental, tornou-se referência para a proteção dos recursos naturais e da biodiversidade.


Na governança corporativa, passou a expressar o dever fiduciário de dirigentes e conselhos de preservar o valor das organizações para seus diversos públicos de interesse.


Na saúde, o conceito começou a ganhar força quando ficou evidente que determinados recursos não pertenciam a uma única instituição nem a um único profissional.

Eles pertenciam à sociedade.


Os antimicrobianos talvez sejam o exemplo mais emblemático.


Cada prescrição beneficia um paciente individual.


Mas também influencia a eficácia desses medicamentos para milhões de outras pessoas.


Cada decisão clínica produz consequências que ultrapassam o consultório, o hospital e até mesmo o sistema de saúde.


É exatamente por isso que surgiu o Antimicrobial Stewardship.


Não como um simples programa.


Mas como a aplicação, na saúde, de um princípio muito mais amplo: administrar de forma responsável um recurso que pertence a toda a sociedade.


Com o avanço da resistência aos antimicrobianos, porém, tornou-se evidente que o problema não poderia ser enfrentado apenas dentro dos hospitais.


A utilização de antimicrobianos na medicina veterinária, na produção de alimentos e na agricultura, assim como a presença de resíduos no meio ambiente e a circulação de microrganismos resistentes, demonstraram que todos esses elementos fazem parte de um mesmo sistema.


Foi nesse contexto que a perspectiva da Saúde Única, ou One Health, ampliou ainda mais o significado do Stewardship.


Hoje, já não basta administrar corretamente um recurso.


É necessário coordenar decisões entre diferentes setores que compartilham a responsabilidade sobre esse recurso.


Essa evolução nos leva a uma definição que talvez represente melhor os desafios do século XXI.


Stewardship não é apenas a administração responsável de recursos.


Stewardship é a governança da responsabilidade compartilhada.


Governança, porque nenhum ator controla sozinho sistemas complexos.


Responsabilidade, porque cada decisão produz consequências que ultrapassam seus limites imediatos.


Compartilhada, porque preservar um bem comum depende da ação coordenada de muitos.


Essa compreensão muda completamente a forma como enxergamos os programas de Stewardship.


Eles deixam de ser apenas iniciativas técnicas voltadas à melhoria de indicadores.


Passam a ser mecanismos de governança capazes de alinhar decisões, integrar instituições e proteger recursos essenciais para toda a sociedade.


Talvez essa seja a principal contribuição do conceito de Stewardship para a saúde contemporânea.


Lembrar que existem recursos que não pertencem a nenhuma organização.


Pertencem às próximas gerações.


E cuidar deles é uma responsabilidade que todos compartilhamos.

 
 
 

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