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Stewardship: a governança da responsabilidade compartilhada

26 de ago.
3 min de leitura

Durante muitos anos, Stewardship foi compreendido como a gestão responsável de recursos limitados. Na saúde, esse conceito ganhou força principalmente por meio dos programas de Antimicrobial Stewardship, voltados ao uso racional dos antimicrobianos.


Essa definição foi fundamental para consolidar práticas clínicas, reduzir prescrições inadequadas e fortalecer a segurança do paciente.


Mas o mundo mudou.


Hoje, sabemos que a resistência aos antimicrobianos não nasce apenas dentro dos hospitais. Ela resulta da interação entre decisões tomadas em diferentes ambientes: serviços de saúde, produção animal, agricultura, indústria farmacêutica, gestão de resíduos, meio ambiente e políticas públicas.


Nenhum desses setores, isoladamente, controla o problema.


Ao mesmo tempo, todos contribuem para sua solução.


Talvez seja justamente esse o momento de ampliar o significado de Stewardship.


Mais do que administrar corretamente um recurso, Stewardship passa a representar a capacidade de governar responsabilidades que são compartilhadas.


Essa mudança parece sutil, mas transforma completamente a forma como entendemos o tema.


O foco deixa de ser apenas o comportamento de um profissional ou de uma organização.

Passa a ser a coerência entre decisões distribuídas por todo um sistema.


Essa é a essência da governança.


Governança não significa controlar todas as decisões.


Significa criar mecanismos que permitam que decisões tomadas por diferentes atores caminhem na mesma direção, produzindo resultados coletivos.


No caso da resistência aos antimicrobianos, essa direção é preservar a eficácia desses medicamentos para as gerações atuais e futuras.


Quando um médico prescreve um antibiótico, quando um veterinário define um tratamento, quando uma indústria trata seus efluentes, quando um gestor estabelece incentivos institucionais ou quando um governo formula políticas públicas, todos estão influenciando o mesmo patrimônio coletivo.


A eficácia dos antimicrobianos deixou de ser responsabilidade exclusiva de qualquer profissão.


Ela tornou-se um bem comum.


E bens comuns exigem responsabilidade compartilhada.


É justamente por isso que a lógica da Saúde Única (One Health) representa muito mais do que uma integração entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente.


Ela representa uma nova arquitetura de governança.


Uma arquitetura em que diferentes instituições deixam de atuar como sistemas independentes e passam a reconhecer que pertencem a uma mesma rede de interdependências.


Sob essa perspectiva, Stewardship deixa de ser apenas um programa técnico.

Torna-se um modelo de governança.


Um modelo capaz de alinhar conhecimento científico, políticas públicas, liderança institucional, incentivos, regulação, educação e comportamento em torno de um objetivo comum.


Esse entendimento também amplia o papel das lideranças.


A pergunta deixa de ser:

“Como controlar o uso de antimicrobianos?”


E passa a ser:

“Como criar condições para que diferentes organizações compartilhem responsabilidades e tomem decisões coerentes diante de um mesmo desafio?”


Essa talvez seja a principal evolução conceitual do Stewardship neste século.


Não se trata apenas de administrar recursos.


Trata-se de construir confiança entre instituições.


Integrar informações.


Coordenar políticas.


Compartilhar responsabilidades.


Produzir decisões coerentes.


Em outras palavras, Stewardship deixa de ser uma estratégia de controle para tornar-se uma estratégia de governança.


Uma governança baseada na responsabilidade compartilhada.


Num mundo em que os maiores desafios atravessam fronteiras, nenhuma organização será capaz de produzir soluções sozinha.


A sustentabilidade dos sistemas de saúde dependerá cada vez mais da capacidade de transformar responsabilidades individuais em compromissos coletivos.


Talvez seja essa a definição que melhor represente o futuro do Stewardship:

Stewardship é a governança da responsabilidade compartilhada.


Não apenas porque protege recursos.


Mas porque torna possível preservar aquilo que pertence a todos.

 
 
 

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